Caso de arroz

Carlos Drummond de AndradeCarlos Drummond de Andrade foi poeta brasileiro. “No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho”. Este é um trecho de uma das poesias de Drummond, que marcou o 2º Tempo do Modernismo no Brasil. Foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX.  Leia Mais … (link externo).

Abaixo, você poderá conferir a Crônica “Caso de arroz”, onde Drummond faz uma relação entre o arroz e as drogas que são vendidas quase livremente no país.


Caso de arroz

E assim aquela eficiente dona-de-casa do Leblon resolveu o problema do arroz, do feijão, da carne e de outras preciosidades da nossa era: mudando de mercearia.

– Não! – exclamou a amiga. Não vá me dizer que Nossa Senhora Aparecida desceu por aqui e montou um supermercado. Milagre não vale!

Pois não era milagre, quem falou nisso? Era apenas a Federação, que divide (e reúne) o Brasil em nações autônomas, com seus recursos econômicos e seu comércio próprios. Os novos fornecedores de Dona Araci ficam ali no Estado do Rio. Não é precisamente no bairro em que ela mora, mas o casal comprou um carrinho paulista, e o marido de Dona Araci é um amor: concordou em ir de lotação para o escritório. Ela pegou os dois garotos, botou-os no carro e tocou para o País da Fartura, Caxias chamado:

– Vocês dão um passeio e me ajudam a carregar os sacos. O merceeiro de Caxias vendeu a Dona Araci umas duas arrobas de magnificente arroz, mas ponderou-lhe, com o saber de experiências feito:

– Madame não passa na barreira com esse sortimento. O máximo permitido são cinco quilos.

– Não seja por isso. Trouxe fronhas em quantidade, e vou transformar meus feijões e meu arroz em travesseiros para os meninos repousarem a cabeça – retrucou-lhe a precavida senhora.

Assim foi feito, e, de novo com o pé na tábua, a família voltou muito feliz para o País do Está-emFalta, conhecido também por Guanabara.

Junto à barreira, a fila de caminhões e automóveis era longa, e os guardas procediam a uma investigação cabal. A Alfândega de Nova York não seria mais rigorosa, ao farejar entorpecentes ou engenhos nucleares. Alguns veículos retrocediam, e de outros os motoristas retiravam pacotes condenados, que eram entregues à lei, na pessoa de seus agentes implacáveis.

– Qual, não atravesso esse muro de Berlim – suspirou Dona Araci, desanimada. Eles fazem até radiografia da gente.

Nisso apareceu um cortejo fúnebre, que os guardas deixaram passar sem formalidades, dando-lhe preferência, e Dona Araci não teve dúvida: incorporou-se a ele, recomendando aos garotos:

– Vocês aí: façam cara triste!

E lá se foi o enterro, enorme. Que defunto seria aquele, tão estimado, a julgar pelo número de acompanhantes, pelas fisionomias compungidas? Eis que aparece o cemitério, na curva da estrada, e de súbito o imenso acompanhamento deixa o carro mortuário quase sozinho, com um ou dois carros na retaguarda, e toca para o Rio. Os motoristas interpelam-se aos gritos:

– Quantos quilos você trouxe?

– E você?

– E você?

Dona Araci não chegou a apurar quem era o morto a que prestara aquela homenagem de emergência. Os outros também não sabiam. E daí, talvez o caixão não contivesse nenhum defunto, quem sabe?

(Andrade, Carlos Drummond de. “Caso de arroz”. In: ANDRADE, Carlos Drummond et al. Para Gostar de Ler: Crônicas I. São Paulo: Ática, 27. ed., 3ª impressão, 2003, vol. 1, p. 46-7.)

Disponibilidade do Material

Esta Crônica encontra-se no livro “Para gostar de ler: Crônicas I”. A Biblioteca Setorial do CCAE conta com 1 exemplar deste material na unidade de Mamanguape. Utilize a consulta ao acervo* para verificar a disponibilidade do mesmo.

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