O dia da caça

Fernando SabinoFernando Sabino foi um escritor, jornalista e editor brasileiro. Recebeu diversos prêmios, entre eles, o Prêmio Jabuti pelo livro “O Grande Mentecapto” e o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. Foi condecorado com a Ordem do Rio Branco, no grau de Grã-Cruz, pelo governo brasileiro. Leia Mais … (link externo).

Abaixo, você poderá conferir a Crônica “O dia da caça”, onde Fernando Sabino nos convida a refletir e concluir que o crime não compensa.


O dia da caça

A caçada estava marcada para as 7 horas. Desde as 6, porém, Paulo e eu já estávamos de pé, aguardando a chegada de seu Chico Caçador.

– Seu Chico vai trazer as espingardas?

– Vai. E cachorro também.

– Cachorro? Para que cachorro?

Olhei com pena meu companheiro de aventura:

– Onde você já viu caçada sem cachorro, rapaz?

– Ele disse que hoje vai ser só passarinho.

– Passarinho para ele é codorna, macuco, essas coisas…

Em pouco chegava seu Chico, todo animado:

– Tudo pronto, meninos?

De pronto só tínhamos o corpo. Seu Chico trazia atravessadas às costas duas espingardas de caça e usava um gibão de couro, uma cartucheira, vinha todo fantasiado de caçador. Ao seu redor saracoteava um cachorro:

– O melhor perdigueiro destas redondezas.

Na varanda da fazenda, seu Chico se pôs a encher os cartuchos, meticulosamente, usando para isso uns aparelhinhos que trouxera, um saquinho de pólvora, outro de chumbo:

– Vai haver codorna no almoço para a família toda – dizia, entusiasmado.

Despedimo-nos comovidos da família e partimos através do pasto. Seu Chico, compenetrado, ia dando instruções, procurando impressionar:

– Parou, esticou o corpo, endureceu o rabo? Tá amarrado. É só esperar o bichinho voar e tacar fogo!

– Seu Chico, nós não vamos passar perto daquele touro, vamos?

– Aquele touro é uma vaca.

A vaca levantou a cabeça e ficou a olhar-nos, na expectativa.

– Por via das dúvidas, me dá aí essa espingarda.

Fomos passando com jeito perto da vaca.

– Bom dia – disse eu.

– Buu – respondeu ela.

Ao sopé do morro o cachorro se imobilizou.

– É agora! Me dá aqui a espingarda!

– Fiquem quietos – comandou seu Chico, num sussurro.

– Que foi, seu Chico? Não estou vendo nada…

Alguma coisa deslizou como um rato por entre o capim rasteiro, levantou vôo espadanando as asas.

– Fogo! Fogo!

Paulo atirou na codorna, eu atirei em seu Chico.

– Cuidado!

– Que bicho é esse?

Seu Chico suspirou, resignado:

– Era uma codorna. Não tem importância… Olha, quando atirar outra vez, vira o cano pro ar. O chumbo passou tinindo no meu ouvido.

No ar ficaram apenas duas fumacinhas. Fomos andando, seu Chico carregou novamente nossas espingardas. Assim que o cachorro se imobilizava, ficávamos quietos, farejando ao redor, canos para o ar.

– Vira isso pra lá!

– Agora! Fogo!

Mal tínhamos tempo de ver uma coisa escura desaparecer no céu, como um disco voador.

– Asssim também não vai, seu Chico. Não dá tempo…

– Me dá aqui essa espingarda. Deixa eu matar a primeira para mostrar como é que é.

Andamos o dia todo pelo pasto. Nada de caça.

– Nem ao menos uma codorninha – suspirava seu Chico, quando o sol começou a dobrar o céu. – Tem dia que eu mato mais de quinze macucos.

Andando, subindo morro, saltando cerca, atravessando valas, pisando em barro, escorregando no capim. o estômago começou a doer.

– Seu Chico, o melhor é a gente desistir. Estamos com fome.

– Hoje no jantar vocês comem perdiz. Ou eu desisto de ser caçador.

Sua honra estava em jogo. A tarde avançava e seu Chico perscrutando o pasto, açulando o cachorro. Paulo, sentado num toco – desistira de andar: tirara o sapato e coçava o dedão do pé. Resolvi também fazer uma parada para caçar carrapatos. Seu Chico desapareceu numa dobra do terreno. De repente, pum! pum! – era o caçador solitário. Teria acertado desta vez? A vaca de novo. Vinha vindo pachorrentamente pela picada aberta por ela própria.

– Cuidado, Paulo! – preveni. – Olha a vaca.

Paulo se voltou para a vaca, que já ia passando ao largo:

– Buuu! – fez com desprezo.

A vaca se deteve, voltou-se nos flancos e de súbito disparou num pesado galope em sua direção. Paulo deu um salto, abriu a correr, passou por mim como um raio:

– Foge! Foge!

Atrás de nós a terra estremecia e a vaca bufava, escavando o chão com as patas.

– Seu Chico! Socorro!

Em poucos minutos e aos saltos, escorregadelas, trambolhões, cruzamos o terreno que leváramos toda a manhã a conquistar. Já na porteira da fazenda, nos voltamos para ver a vaca, que ficara para trás, entretida com uma touceira de capim.

– Devo ter falado algum palavrão em língua de vaca.

Em pouco regressava seu Chico, cabisbaixo, desmoralizado, quase chorando:

– Errei até em anu.

Procuramos consolá-lo:

– Um dia é da caça e outro do caçador, seu Chico.

Deixou conosco as espingardas e foi-se pelo pasto mesmo, evitando a fazenda e o opróbrio aos olhos dos moradores. Paulo e eu nos coçávamos, sentados no travão da cerca, quando ambos demos um grito:

– Epa! Que é aquilo?

– Você viu?

Uma caça, uma caça enorme! Um gigantesco galináceo que ao longe ganhava o morro em disparada, sumindo ali, surgindo lá – uma cegonha?

– Cegonha nada! Uma avestruz!

Saímos como loucos em perseguição da avestruz. Nas fraldas do morro disparamos o primeiro tiro.

– Socorro! – berrou a avestruz.

Deu um salto e abriu fuga com suas pernocas longas, morro acima. Ah, se seu Chico nos visse agora!

– Pum!

– Socorro!

E a ave pernalta fugia espavorida, escondendo-se na vegetação. Íamos no seu encalço, implacáveis.

– Pum! – trovejava a espingarda.

– Não! Não! – implorava a avestruz na sua fuga, largando penas pelo caminho.

A noite veio surpreender-nos do outro lado do morro, já às portas da cidade. Voltamos para a fazenda estropiados, roupas rasgadas, sapatos pesados de barro. Fomos recebidos com alegre expectativa.

– E então? Caçaram alguma coisa?

– Com seu Chico, nem um passarinho. Mas depois que ele foi embora quase apanhamos uma caça esplêndida, uma avestruz deste tamanho…

O dono da fazenda pôs as mãos na cabeça:

– Minha siriema, que eu mandei vir da Argentina! Imagine o susto da coitadinha!
Embarafustamo-nos pela cozinha, completamente derrotados.

– Que vamos ter hoje no jantar? – perguntei à cozinheira.

– Galinha ao molho pardo.

– Já matou?

– Não.

Empunhei a espingarda com decisão e voltei-me para o galinheiro, mas Paulo cortou-me os passos:

– Não faça isso! O crime não compensa.

E propôs que na manhã seguinte saíssemos para caçar borboletas.

(SABINO, Fernando. “O dia da caça”. In: ANDRADE, Carlos Drummond et al. Para Gostar de Ler: Crônicas I. São Paulo: Ática, 27. ed., 3ª impressão, 2003, vol. 1, p. 33-7.)

Disponibilidade do Material

Esta Crônica encontra-se no livro “Para gostar de ler: Crônicas I”. A Biblioteca Setorial do CCAE conta com 1 exemplar deste material na unidade de Mamanguape. Utilize a consulta ao acervo* para verificar a disponibilidade do mesmo.

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